quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Um dia qualquer

Dez e meia da manhã.  Já deveria estar no trabalho, mas estou na cama. Não consigo sair dela. Sinto-me pequena e abraço o travesseiro. A fronha acolhe minhas lágrimas; o cobertor esquenta minha loucura.

Levanto e vou para o computador, grande vício. Durmo conectada, acordo conectada. Emails, facebook, twitter. O que será que teremos daqui a um tempo? Que tempo é esse que não nos desconecta?
Nada de novos emails. Desligo o computador e vou para o banho. Ótimo lugar para chorar, as lágrimas se confundem com a água, escorrem pelo corpo, se perdem. A água quente alivia a tristeza. Mas tristeza de que? Hoje, tristeza de acordar. Queria continuar dormindo. Queria não acordar.
Resolvo sair de casa às onze e meia. Pego a Avenida 23 de maio, uma das mais movimentadas de São Paulo, talvez do mundo. O trânsito está livre. De repente um cachorro tenta atravessar no meio dos carros... Não olhei para trás pra ver o que aconteceu, só reparei que ele tinha uma coleira. Alguém deve estar triste atrás dele. E vai ficar mais triste daqui a pouco... Eu continuo no meu trajeto, quando uma moto passa alucinadamente do meu lado direito. Lado direito? Logo em seguida um caminhão erra a entrada do túnel Ayrton Senna e começa a dar ré. Na Avenida 23 de maio?! Isso é possível? O ritmo está muito acelerado para quem não queria acordar. Lágrimas escorrem. Será que elas não acabam dentro de mim?
Chego ao trabalho. Não tem lugar para parar o carro, rotina infernal de todos os dias. 15 minutos rodando. Nada. 30 minutos. Nada. 40 minutos, resolvo parar o carro no estacionamento mais caro da região, infelizmente da própria empresa em que trabalho. Outra lágrima escorreu. De raiva, de ódio, de vontade de continuar na cama. Melhor chorar na minha fronha do que na frente de pessoas que me vêem todo dia.
- Tudo bem, Dra.? Pergunta o moço simpático do estacionamento.
- Tudo bem, respondi, escondendo a lágrima no gigante óculos de sol.
Aliás, hoje não fez sol. Mas a claridade me incomoda, e os óculos escondem minha tristeza.
Entro em minha sala. Ligo o computador. A internet demora a funcionar. Inferno! Sem internet não dá mais para trabalhar, eu digo. Mas o desejo mesmo era ver se tinham novos emails, novos “posts” no facebook, novos seguidores no twitter. Mal sei mexer no twitter. 
Projetos para corrigir, provas para imprimir, lâminas para olhar, aulas para fazer, mas não consigo fazer nada.
Começo a escrever. Assim os colegas de trabalho pensam que estou escrevendo um artigo científico para publicar numa revista internacional Qualis A. Outro inferno! As pessoas são medidas pela produção científica. E o resto? E as outras qualidades fundamentais?
As palavras vêm jorrando na minha cabeça. Talento ou vocação? Só talento ou só vocação? Ou nenhum, nem outro? Perdas, dores, angústias, desejos, emoção, intensidade, verdades. Queria que elas parassem de me sufocar. Chega! Quero paz. Mas não tenho. Estou confusa, minha mente está inquieta, questionadora. E agora?
As palavras me perseguem e eu ainda não sei o que fazer com elas. Queria escrever leve, mas como escrever leve se ainda tenho vontade de não acordar? Como escrever leve se as coisas não são leves? E as dores todas que povoam minha vida? E as perdas e fracassos? E as angústias e medos? E a solidão que me habita?
As pessoas da mesa ao lado me olham diferente.
- Tudo bem, Dra.? Essa é a frase do dia, definitivamente.
- Tudo bem, respondo. Só estou com muita coisa pra fazer.
Verdade e mentira. Verdade porque muitas coisas pra fazer existem mesmo, mas eu não consigo fazer absolutamente nada do que deveria. Mentira porque o que mais queria era ficar escrevendo as palavras que jorram na minha cabeça.
Seis da tarde. Ainda tenho mais um período de trabalho. Das sete às dez uma aula que, hoje, vai parecer interminável.
Às seis e meia, um colega de trabalho se despede:
-  Tchau Dra., boa noite e até amanhã.
- Até amanhã, eu disse.
Outra lágrima escorre pelo meu rosto e sigo para a sala de aula.