quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Uma marca de alegria

Ela fez uma marca no corpo em um dos momentos mais tristes da vida. Escreveu em suas costas "Alegria." Definitivamente não era a alegria daqueles que vivem num mundo ilusório sem dor, pois sempre "desafinou o coro dos contentes." Em uma conversa com uma pessoa querida, ouviu a seguinte frase sobre sua tatuagem: "Essa palavra é a flor do seu silêncio." Ela concordou; era a flor de um silêncio triste querendo florescer num corpo cansado, mas corajoso e renascido.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Silêncio.

Sinto o afeto através das palavras. Quando ele falta, elas calam.

Pequenos excessos, grandes medos.

Sempre tive medo de beber, fumar, extrapolar. Excesso mesmo só de angústia no peito... Hoje resolvi experimentar. Abri uma garrafa de vinho, acendi um cigarro e sentei na cadeira da sacada. Para me acompanhar, um novo livro. Uma página, um gole de vinho, uma tragada de cigarro, outra página, outro gole, outra tragada; fui seguindo assim até a última página. Enquanto lia, sentia um vento diferente no meu rosto. Vento parecido com o relatado pela personagem principal do livro. A menina dizia: "Não sei o que aconteceu que os ventos não param de voar, de um lado pro outro." Era um vento só dela. E aqui, na minha sacada dos pequenos excessos e grandes medos, o vento também é só meu.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Amor?


Nunca fui bom na arte de amar, disse o escritor. Rasgando a décima folha de papel após tentativas em vão de se escrever sobre o amor, esbravejava entre soluços dizendo que a análise tinha acabado com os seus suspiros românticos, e que não se imaginava mais esperando a perfeição da doce amada ou desejando uma paixão que lhe tirasse os pés do chão. Em sua última sessão, deitou-se no divã e disse para a analista: Como posso escrever sobre o amor se eu não sei mais amar como antes? Onde foi parar aquela ilusão da busca por algo impossível, que sustentava minha falta e regia minhas palavras? Silêncio...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Mar infinito

Acordou com vontade de ver o mar. Pegou seu livro preferido, colocou dentro da mochila e deixou um bilhete em cima da mesa da sala: "Fui". A viagem até a praia sempre foi um dos caminhos mais amados por ele. Sabia exatamente onde ficava cada marca de freio da estrada, e quanto tempo faltava pro litoral. "A serra do mar é minha casa", ele dizia. Os quarenta e cinco minutos correram em silêncio. Fez questão de abrir os vidros do carro para sentir o cheiro da mata e o vento na cara; sensações que o faziam sorrir. Chegando à praia, deixou as coisas no carro e seguiu descalça em direção ao mar. Abaixou-se, sentando-se bem próximo à água, e começou a escrever na areia com o dedo indicador. Parecia um ritual: Ele escrevia, as palavras olhavam pra ele por alguns minutos, as ondas vinham e apagavam tudo. Com a intenção de deixar uma frase escrita por mais tempo, voltou alguns passos na areia e assim escreveu: "O mar é para sempre; finitos somos nós". Levantou-se, limpou uma mão na outra, e, vagarosamente, passo a passo, deixou-se levar pelas águas.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Deus Mar

Ontem pela manhã, quando fui me despedir da praia e do mar do Rio de Janeiro, pensei comigo: Talvez o meu Deus seja o mar.
 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A menina que cheirava flores

Trecho de um projeto de livro infantil escrito por mim e ilustrado por Mayrane Bucar:


Amanda é uma menina sapeca que tem os olhos bem pretinhos, parecem duas jabuticabas. Ela vive conversando com as bonecas e com os ursinhos, com as flores e os passarinhos. 

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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Renascida


Ela tinha medo de escrever. Não sabia se suportaria a força das palavras sufocadas. Vivia em um limbo, e sentia que estava recuando de algo que ainda era indecifrável, mas que paralisava e fazia sofrer. Habitava o desassossego de Fernando Pessoa e tentava decifrar filósofos. Na noite de ontem olhou para o céu e lembrou de uma frase de Nietzsche: “È necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela.” Ela sorriu e pensou que de tanto caos dentro dela uma nova galáxia poderia ter sido criada... Como chamaria tal galáxia? Talvez o significado do próprio nome fizesse sentido: Renascida. É isso, galáxia Renascida. Feliz com a fundação de um mundo de estrelas só dela, pegou seu caderninho e começou a escrever. Seu maior desejo era renascer em palavras, e, possivelmente, reinventar a própria vida.


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Série: Objetos para devolução

Ele era um homem que vivia tropeçando nos excessos melancólicos. Escondia sua falta atrás do casaco preto, antigo e mofado de professor doutor. Escrevia poesias sedutoras para conquistar, e não fazia questão de ser ético em sua conduta: se fosse preciso mentir, mentia. Certa vez, tentou seduzir uma mulher comprando-lhe os vinhos e os queijos mais caros do mercado – um tropeço no excesso alimentício. Esforço em vão. Os vinhos nem foram abertos e os queijos estragaram, pois o mais importante ele não conseguiu oferecer: a verdade. Queijos e vinhos serão devolvidos para lembrá-lo de que a penúria existe em quem não cumpre com o compromisso ético da vida.

Mundo digital

Como anda seu círculo social?, pergunta a analista. Serve rede social?, responde a moça sorrindo.

Poesia Urbana

Atravessava distraída a Avenida Paulista, encantada com a dança de guarda-chuvas coloridos dos pedestres – momento de pura poesia urbana. Em fração de segundos meu olhar é capturado pelo andar conhecido de um homem alto e loiro que atravessava a avenida em direção oposta a minha. Começo a viver segundos em câmera lenta: Minha amiga ao meu lado fala e eu não escuto, não enxergo mais ninguém, a chuva me molha, meu corpo vira e acompanha o andar do homem. Ele continua atravessando a avenida. Será que não me viu? Não aguento e o chamo pelo apelido de tantos anos. Dou um passo e aceno. Ele me vê e parece assustado, surpreso. Vem em minha direção, dando apenas um passo para frente. Diz um oi e acena. Logo em seguida, dois passos pra trás. Hesita, quase cai. Abaixa a cabeça. Não consegue. Eu fico parada no meio da Avenida Paulista. Perco a fala. Não sinto mais a chuva. Sigo em frente.